Do volume ao valor: como as marcas estão hackeando o novo consumo de álcool no Brasil

Descubra os novos hábitos de consumo de álcool no Brasil e como as marcas estão substituindo volume por performance.

Clara de Mattos

em 5 de março de 2026

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    Após a ascensão do mercado fitness e wellness no mundo todo, o consumo de álcool no Brasil entrou em declínio. 

    Com coffee parties (ou “festas de café”) e bebidas proteicas sendo inseridas até mesmo nos fast foods, o mercado testemunha uma mudança profunda no comportamento do consumidor.

    As marcas, diante desse novo cenário, se reestruturam não apenas para atender ao desejo do público por performance, mas para garantir um novo espaço nas prateleiras.

    Ilustração em estilo pop art mostrando quatro mãos segurando diferentes tipos de drinks coloridos e refrescantes com frutas e ervas, representando a mudança de hábitos no consumo de álcool no Brasil em direção ao movimento wellness.

    Com a ascensão do mercado fitness, muitos brasileiros estão substituindo coquetéis por opções mais leves e equilibradas. Imagem: Reprodução/IStock.

    Crise do desinteresse: a nova realidade do consumo de álcool no Brasil

    Durante décadas, o setor de bebidas alcoólicas foi um pilar do varejo nacional, com o consumo de álcool no Brasil movimentando cerca de R$ 100 bilhões por ano.

    Hoje, o mercado observa uma transformação comportamental: o consumo de álcool no Brasil deixa de ser um hábito automático para se tornar uma decisão contextual.

    Segundo dados coletados pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) em 2023, o percentual de indivíduos que não realizaram o consumo de álcool no Brasil foi de 55%. Número que saltou para 64% em 2025. 

    Três mulheres jovens sorrindo e conversando em uma mesa de café/bar moderno, consumindo bebidas geladas sem álcool, ilustrando a mudança de hábito e a redução do consumo de álcool no Brasil.

    Para muitos, o lazer não está mais obrigatoriamente ligado à bebida, refletindo uma decisão contextual e consciente. Imagem: Reprodução/IStock.

    Esse número vem diminuindo principalmente em razão dos jovens entre 18 e 34 anos, que taxam o álcool como desinteressante e maléfico à saúde.

    A partir dessas mudanças, as marcas começaram a desenvolver novas formas de chamar atenção e conquistar um público cujo consumo já não é mais o mesmo. 

    A migração do hábito: uma tendência global

    A queda no consumo de álcool no Brasil não é um quadro isolado, mas o reflexo de um movimento global de reestruturação do mercado.

    Após mais de três décadas registrando um consumo anual superior a 8 bilhões de litros, a Alemanha atingiu, pela primeira vez, o nível de volume mais baixo desde 1993. 

    Ao acompanhar seu consumo de álcool caindo de 78% para 68% em uma década, o país reestruturou seu portfólio.

    Com base nas preferências dos consumidores, o comércio alemão tornou a cerveja sem álcool líder de vendas no país.

    Homem jovem de camiseta branca fazendo um sinal de "pare" com a mão para uma garrafa de cerveja em um fundo amarelo, simbolizando a rejeição e a queda no consumo de álcool no Brasil.

    Brasil se consolida como o 2º maior mercado NOLO do mundo, refletindo a queda direta no consumo de álcool no Brasil. Imagem: Reprodução/IStock.

    Segundo dados coletados pela IWSR Drinks Market Analysis, o valor de mercado para a categoria de sem ou baixo álcool, o NOLO (No and Low Alcohol), deve crescer em média 6% por ano entre 2023 e 2027.

    Como marco desse movimento, o Brasil hoje se consolida como o 2º maior mercado NOLO, redefinindo o setor de bebidas no país. 

    O novo código de consumo: quando a performance substitui o brinde

    A razão por trás dessa mudança é clara: o mercado está migrando seus hábitos de consumo.

    Enquanto o marketing de uma década atrás focava em um consumo frequente e em massa, o marketing atual busca agregar valor naquilo que é produzido e para diversos segmentos.

    Uma pessoa jovem em um ambiente de escritório moderno e iluminado, segurando um copo de água ou bebida funcional refrescante, simbolizando o foco em produtividade que altera o consumo de álcool no Brasil.

    A busca por maior performance física e mental é um dos motores da redução no consumo de álcool no Brasil. Imagem: Reprodução/IStock.

    A estratégia atual entrega praticidade e benefícios para a saúde física e mental, consolidando tendências que buscam romper com o óbvio.

    Fora o álcool, refrigerantes e bebidas ultra processadas também foram deixados de lado para dar lugar a produtos benéficos e sensoriais.

    Com uma reengenharia de portfólio, as marcas visam capturar um público que não está apenas buscando substituir o álcool, mas que promove novas ocasiões de consumo em que não dependem mais dele. 

    Composição de diversos coquetéis coloridos em taças variadas, com gelo, frutas cítricas e lichia sobre uma mesa, representando a diversidade de produtos que impactam o consumo de álcool no Brasil.

    A reengenharia de portfólio foca em entregar experiências sensoriais complexas. Imagem: Reprodução/IStock.

    Quando o “não beber” se torna inspiração

    Apesar da ascensão do mercado NOLO no Brasil ser recente, fazia-se alguns anos que já era esperado essa queda no consumo. 

    Segundo pesquisas realizadas pela WGSN, já era previsto desde 2019 que a ideia de “não beber” se tornaria uma redefinição de status social.

    Ainda em 2022, a empresa já mapeava o que se tornaria o comentado movimento “sober curious”.

    A ideia promove uma relação mais reflexiva com o álcool, e incentiva a redução ou eliminação do consumo de bebidas como um estilo de vida.

    Para ganhar destaque em um mercado em transição, tornou-se fundamental que as marcas transformassem dados em estratégias de consumo e venda. 

    Vista aérea de uma equipe de profissionais de marketing reunida em torno de uma mesa com post-its e gráficos, planejando estratégias de posicionamento de mercado e analisando tendências do consumo de álcool no Brasil.

    Equipes de marketing utilizam dados para consolidar novas categorias de consumo de álcool no Brasil. Imagem: Reprodução/IStock.

    A Heineken, após compreender o que seu público realmente tem priorizado, direcionou 10% de todo seu budget global de marketing especificamente para a categoria 0.0. 

    No Brasil, os resultados apontaram um aumento de 20% nas vendas de cervejas zero álcool no final de 2025, a qual permanece como líder no mercado. 

    Captura de tela de um post no Instagram da Heineken Brasil mostrando corredores em uma via urbana durante a "The 0.0 Run", uma corrida de rua para promover a cerveja zero álcool e novas formas de socialização ligadas ao consumo de álcool no Brasil.

    Grandes marcas estão usando o esporte para ressignificar o consumo de álcool no Brasil. Imagem: Reprodução/Divulgação.

    Além do produto, a Heineken aproveitou do alcance e realizou a corrida “The Run 0.0” para promover o produto 0.0 e conectar seus consumidores com os novos propósitos da marca.

    Enquanto o marketing de uma década atrás enxergava o consumo de álcool no Brasil como um hábito automático, a atualidade o torna uma escolha intencional.

    Inovação no ponto de venda: como as marcas estão se transformando

    Dentro do setor de cerveja, as marcas articulam estratégias para promover um consumo mais saudável e um posicionamento consciente.

    A Ambev, ao acompanhar as mudanças no consumo de álcool no Brasil, lançou a ‘Skol Zero Zero’.

    A cerveja é composta por zero álcool e zero açúcar, o que entrega diferencial e funcionalidade em apenas 12 calorias por lata.

    Por outro lado, a Itaipava lançou o ‘Pack Responsável’, uma estratégia de Zebra Striping, cujo objetivo se baseia em intercalar o consumo de bebidas alcoólicas com bebidas não alcoólicas

     

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    O pack intercalou três unidades da versão sem álcool entre as demais, oferecendo uma solução prática e uma jogada de marketing para gerar mídia espontânea ao tornar um item de prateleira em responsabilidade corporativa..

    Entretanto, com o setor de cerveja cada vez mais saturado, o foco das empresas agora se expandiu para horizontes que fujam do óbvio e alcancem nichos diversos. 

    Abaixo listamos as tendências atuais de bebidas NOLO e funcionais, que estão ganhando espaço nas prateleiras e redefinindo o consumo de álcool no Brasil.

    1. Ready-To-Drink (RTD)

    Entre as diversas opções de bebidas, a categoria RDT (ou Ready-to-Drink) consolidou-se como um dos pilares de maior crescimento e rentabilidade no cenário atual.

    Com uma tendência de expansão anual superior a 10% no Brasil, a proposta de drinks clássicos e autorais já “pronto para consumo” tornou-se uma das principais preferências do mercado nacional. 

    Como diferencial estratégico, o formato permite que as marcas entreguem desde praticidade, pelo fácil acesso, até complexidade sensorial, ao atravessar as barreiras da produção tradicional.

    Infográfico publicitário com três latas de bebidas coloridas e sofisticadas denominadas Rubra, Gingibre e Veneta, com descrições de sabores como bitter artesanal, gengibre e frutas vermelhas, ilustrando a reengenharia de portfólio para o mercado de consumo de álcool no Brasil.

    Marcas investem em sofisticação e praticidade “direto da lata” para atrair o público que busca valor sensorial. Imagem: Reprodução/Divulgação.

    Como exemplo de estratégia, a marca de bebidas mineira Equilibrista aposta na entrega de drinks com sabor de qualidade e equilibrados em latas sofisticadas.

    Criada em 2015, a marca tem comprovado que o consumo de álcool no Brasil tem sido moldado por opções que oferecem uma experiência sensorial, mas, principalmente, uma identidade própria.

    Outro destaque é a marca Glimmer, que utiliza cores vibrantes e tendências atuais para capturar um público ávido por autenticidade e sabor.

    @sejaglimmerasmr glimmer 🎧 amanhã 12hrs, vendas liberadas! *aprecie com moderação. +18♬ som original – sejaglimmer

    Com as opções ‘sunny lemon’ e ‘pink berry’, e menos de 10 kcal por lata nas opções sem álcool, a Glimmer atende à crescente demanda por saudabilidade funcional. 

    O posicionamento da marca também ganha destaque, tendo o produto como uma escolha de performance diante do estilo de vida contemporâneo.  

    2. Bebidas proteicas

    Com o nicho fitness dominando diversos segmentos, o setor de bebidas não poderia ficar para trás.

    A reestruturação do setor traz as bebidas proteicas como um forte potencial de market share.

    Segundo dados da NielsenIQ, foi possível detectar um crescimento no setor de mais de 30% em valor no último ano no país.

    O impacto tem sido grande, impulsionado por um ticket médio elevado em comparação a outras bebidas.

    Além de conter uma boa quantidade de proteínas por porção, a collab da Piracanjuba com a Milk Moo é um exemplo estratégico de como unir tendência com propósito.

    Outro exemplo claro de reestruturação são as águas proteicas, que rapidamente fizeram sucesso pelas redes.

    Opções que integram taurina, colágeno e vitaminas em sua composição estão se tornando um suporte completo de performance diária. 

     

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    A oferta no mercado tem aumentado consideravelmente, e expande-se para uma variedade de sabores e propostas que permitem ao consumidor escolher o produto que irá suprir suas metas nutricionais.

    Fica claro que a estratégia de mercado agora é: quanto mais benefícios seu produto tiver, maior será o valor agregado a ele.

    3. Kombuchas 

    Após o seu primeiro boom de consumo em 2017, as kombuchas retornam como uma opção de estratégia para o mercado nacional. 

    Focada em trazer saúde e benefícios práticos, a bebida é à base da combinação de chá verde e chá preto fermentado, que auxilia na imunidade e na microbiota intestinal.

    Nesse cenário, a Tão vem transformando o setor de kombuchas após um rebranding estratégico da marca.

    A marca, que deixou de promover apenas uma bebida, agora vende um acessório de estilo de vida que alcança diferentes públicos.

     

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    Em um setor que vem dobrando de tamanho, a marca posicionou sustentabilidade, reciclagem e reuso de embalagens como um lifestyle, sendo o diferencial que o público tanto procura. 

    Dentre as bebidas produzidas pela Tão, chás gaseificados e refrigerantes prebióticos também estão na lista, sendo alternativas que também estão moldando o consumo de álcool no Brasil.

    4. Coffee Parties e Wine Yoga 

    Além da reengenharia no portfólio de bebidas, as dinâmicas sociais também estão passando por uma reestruturação no mundo todo.

    Novas formas de festejar e lazer são introduzidas, fazendo com que o consumo de álcool no Brasil se desloque para as mais diferentes formas e contextos, que antes seriam impensáveis.

    Para o público que prioriza dormir cedo e sem ressaca, as Coffee Parties – ou festas em cafés – estão ganhando lugar na rotina matinal de muitos indivíduos.

    Com música eletrônica e cafés especiais, como latte e expresso, e poucas opções de bebidas alcoólicas, a proposta surge para atender a um grupo que tem como foco energia e conexão, mas sem abrir mão da manhã seguinte.

    @tiagomelchior O tipo de brunch que eu gosto 😌☕️ @dubdogz x @justabrunchbr num café de SP #coffeeparty #brunch #dubdogz ♬ original sound – Tiago Melchior (Extended Mix)

    Outra iniciativa que ganhou destaque nas cidades cosmopolitas são as Wine Yoga, prática que une os benefícios de relaxamento da yoga à oportunidade de degustação de vinho.

    Essa tendência é um reflexo direto de um movimento que também redefine o setor de bebida: a “premiumização”.

    @.gemini.organic O trio perfeito existe: Yoga, Vinho e Pele Renovada. 💚🍇 Que energia surreal no Ramblas com a Yoga Vibes e a @The Real Wellness! Tudo a ver com a Gemini: autocuidado simples e natural! Para garantir aquele refresh para as meninas trouxemos o kit preferido de vocês ☺️, o Hidra Cream. ✅ Espuma de Limpeza pra tirar o suor. ✅ Hidratante pra devolver o viço. Seu momento pós treino!💚 #wellness #GeminiOrganic #autocuidado #cleanbeauty #fyp ♬ som original – Gemini Organic

    Com o objetivo de agregar valor e qualidade superior a um produto, essa técnica representa uma mudança estratégica necessária, que desloca o foco do volume para o valor.

    Através do equilíbrio da prática corporal e da bebida, a iniciativa transforma uma simples aula em uma experiência sensorial única.

    E o resultado? Uma conexão direta entre a marca e o seu público.

    5. Bebidas adaptógenas

    Com o objetivo de unir foco e relaxamento com ativos botânicos (plantas, cogumelos e ervas), as bebidas adaptógenas surgem como uma categoria que molda o novo consumo de álcool no Brasil. 

    A proposta por trás das bebidas adaptógenas é entregar uma alternativa com complexidade sensorial, de forma equilibrada e, acima de tudo, experiencial. 

    Com seu estoque esgotando em apenas oito horas após o lançamento, a marca de aperitivo nacional Lucia comprovou a urgência de inovação dentro do mercado.

     

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    Com a expectativa de faturar R$ 10 milhões em um ano, a estratégia da marca foi unir o que o público está cada vez mais à procura: o que é fora do comum.

    Lucia abraça a ideia de ser ‘mais limpa’, sendo vegana e livre de açúcares e sódio, e promove um ‘novo código social para o ato de brindar’, como definem as próprias fundadoras da Lucia. 

     

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    Sendo capaz de oferecer uma experiência completamente única, a marca transformou saúde e bem-estar em sofisticação, prazer e exclusividade com destaque na capa da Fobers. 

    Então, é adaptação ou tendência passageira?

    Frente a um cenário em constante mudança, é necessário compreender o que realmente está sendo inserido no cotidiano dos consumidores e o que é apenas um fenômeno passageiro.

    Entretanto, diante de diversas iniciativas que promovem a ideia de diminuir o consumo de álcool no Brasil e no mundo, fica claro que estamos presenciando uma reconfiguração de setor. 

    É preciso que as marcas estejam preparadas para alcançar um público que agora busca funcionalidade aliada a designs sofisticados.

    Fugindo do “automático”, empresas que conseguirem transformar seus produtos em símbolos de lifestyle e bem-estar possuem um maior potencial de destaque.

    Para o varejo nacional, dependerá da capacidade das marcas de monetizar não apenas o que tem dentro da garrafa, mas conseguir transparecer a identidade e os valores do consumidor através de uma lata. 

    Av. do Antão, 1762 - Morro da Cruz | Florianópolis
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