Efeito Ozempic: o apetite mudou, mas e o consumo?

Veja o que os novos hábitos de saúde revelam sobre o consumidor e como o 'Efeito Ozempic' vai muito além da balança.

Thamyris Santos

em 28 de outubro de 2026

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    O que começou como uma transformação no campo da saúde rapidamente ganhou espaço nas conversas sobre comportamento, estética e consumo.

    O avanço dos medicamentos à base de GLP-1, popularmente associados ao Ozempic, está criando um efeito que ultrapassa os consultórios e chega às prateleiras, aos guarda-roupas e às estratégias de marketing.

    Um estudo de tendências realizado pelo Grupo In Press Data Strategy mostra como essa mudança pode impactar diferentes setores à medida que o uso das chamadas “canetinhas” se populariza.

    A questão deixa de ser apenas quantas pessoas estão usando esses medicamentos e passa a ser: o que acontece com o consumo quando a relação das pessoas com fome, corpo e alimentação muda?

    Cena da animação Family Guy mostrando a personagem Lois Griffin e outra mulher magras vestindo tops, satirizando a busca por padrões estéticos e a popularização do Ozempic.

    Satirizado na cultura pop, o padrão estético e o impacto comportamental associados ao Ozempic ultrapassam a medicina e reconfiguram diferentes setores do mercado. Imagem: Reprodução/GIPHY.

    Quando a saúde começa a redesenhar o consumo

    Nos Estados Unidos, onde o fenômeno está mais avançado, mais de 16 milhões de adultos já utilizavam medicamentos dessa categoria em 2025, segundo os dados apresentados no estudo.

    A expectativa apontada é de que o mercado global ultrapasse US$ 150 bilhões até 2030.

    No Brasil, cerca de 5,5% da população já utiliza medicamentos análogos ao GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, acima da média global de 3,7%.

    Mas o tamanho desse mercado não está apenas no número de usuários. Está no efeito indireto que ele provoca.

    Ao reduzir o apetite e aumentar a sensação de saciedade, os medicamentos podem alterar a maneira como as pessoas escolhem, compram e consomem alimentos.

    E quando um comportamento muda, as categorias que dependem dele também precisam se adaptar.

    GIF da personalidade de TV Khloé Kardashian no programa Keeping Up with the Kardashians com a legenda em inglês "My weight doesn't define who I am", representando as discussões sobre corpo, peso e o uso do Ozempic.

    “Meu peso não define quem eu sou.” Imagem: Reprodução/GIPHY.

    Segundo dados reunidos na pesquisa, usuários relataram mudanças importantes na alimentação: 56% fizeram escolhas alimentares mais saudáveis, 47% passaram a consumir porções menores e 29% reduziram os gastos com alimentos e bebidas.

    O estudo também aponta uma queda de 21% no consumo de alimentos durante o tratamento.

    Para o marketing, é uma mudança importante de lógica: menos quantidade não significa necessariamente menos valor.

    Pode significar mais intenção na escolha.

    GIF de um homem careca em um estúdio de podcast anotando em uma prancheta com a legenda em azul "OZEMPIC ALL DAY, EVERY DAY", ilustrando a onipresença do Ozempic e as mudanças de hábitos alimentares.

    “Ozempic o dia todo, todo dia/É o que eu sempre digo.” Imagem: Reprodução/GIPHY.

    A lógica é interessante para o mercado: se o consumidor está comendo menos, a marca precisa fazer cada ocasião de consumo valer mais.

    Isso abre espaço para novas propostas de produto, embalagens, porções e posicionamentos. E também para uma comunicação que fale menos de excesso e mais de funcionalidade, experiência, qualidade e equilíbrio.

    GIF do canal Porta dos Fundos com o ator Rafael Portugal gesticulando e a legenda "Eu estou querendo lhe proporcionar uma experiência", ilustrando a mudança de foco do excesso para a experiência de consumo na era do Ozempic.

    Menos excesso, mais experiência: com as mudanças geradas pelo Ozempic, marcas passam a focar na qualidade e no valor de cada ocasião de consumo. Imagem: Reprodução/GIPHY.

    O impacto não para no supermercado

    A transformação também chega às bebidas. Uma pesquisa citada no estudo aponta que pessoas em tratamento com GLP-1 consumiram 62% menos álcool.

    Para um setor historicamente associado à socialização, celebração e entretenimento, a mudança pode ser ainda mais profunda.

    A tendência de moderação, que já vinha ganhando força dentro do movimento wellness, passa a encontrar um novo contexto de consumo.

    E aqui surge uma provocação interessante para marcas e mídia: se o álcool deixa de ocupar o centro de determinadas experiências sociais, o que entra no lugar?

    GIF da série The Office com o personagem Michael Scott perguntando "Do you think that doing alcohol is cool?", ilustrando a redução no consumo de bebidas alcoólicas impulsionada pelo uso de Ozempic.

    “Você acha que consumir álcool é legal?” Imagem: Reprodução/GIPHY.

    Novas bebidas, experiências sem álcool, alimentação, entretenimento e outros formatos de socialização podem disputar esse espaço.

    Ou seja, o efeito de uma mudança de comportamento pode criar oportunidades em categorias que, à primeira vista, nem parecem relacionadas ao medicamento.

    Wellness, consumo e o próximo movimento das marcas

    O efeito dos GLP-1 também amplia o mercado de wellness, impulsionando novas demandas por nutrição, fitness, cuidados estéticos e serviços de saúde integrada.

    É um ecossistema que vai além do medicamento e acompanha uma mudança na forma como o consumidor se relaciona com o próprio corpo.

    Para marcas e profissionais de comunicação, o desafio está em entender esse comportamento sem simplesmente surfar o hype.

    O fenômeno conecta saúde, estética, alimentação, estilo de vida e consumo, exigindo mais atenção aos contextos culturais e às novas necessidades que surgem a partir dessa transformação.

    GIF do reality show The Bachelorette mostrando um homem de roupão com máscara facial de tecido e rodelas de pepino nos olhos comendo uma fatia de pepino, ilustrando a expansão do mercado de wellness e autocuidado impulsionada pelo Ozempic.

    Sem surfar apenas o hype: o ecossistema de wellness exige que as marcas compreendam a nova relação do consumidor com o corpo e a saúde. Imagem: Reprodução/GIPHY.

    Com a possível popularização dos medicamentos e a chegada de genéricos, o impacto sobre diferentes categorias tende a crescer.

    A pergunta para o mercado passa a ser: o que o consumidor vai deixar de comprar, o que vai passar a valorizar e quais novas oportunidades vão surgir?

    O efeito Ozempic pode começar na balança, mas já está redesenhando o consumo.

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