Treatonomics: o luxo de bolso que redefine o consumo em tempos incertos

A Treatonomics explica por que pequenos luxos se tornaram válvulas de escape em tempos de incerteza. Entenda o fenômeno.

Thamyris Santos

em 5 de janeiro de 2026

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    Em um cenário global marcado por incertezas econômicas, fadiga digital e mudanças profundas nos valores sociais, o consumo passa a cumprir um novo papel emocional.

    A Treatonomics surge como um fenômeno que explica por que pequenos prazeres, acessíveis e simbólicos, ganham força mesmo quando o orçamento está apertado.

    Trata-se de um reflexo humano sobre como as pessoas buscam alívio, pertencimento e significado em tempos instáveis, redesenhando a relação entre marcas, consumidores e valor.

    Comprar para respirar, não para ostentar

    Não se trata de gastar por gastar. Trata-se de comprar para respirar.

    A Treatonomics nasce desse impulso silencioso e cada vez mais coletivo de buscar pequenos alívios emocionais em um mundo que parece permanentemente em estado de alerta.

    Quando grandes conquistas da vida adulta como casa própria, estabilidade financeira ou ascensão profissional se tornam mais distantes, o consumo passa a assumir uma função diferente.

    Ele deixa de ser apenas material e passa a ser simbólico.

    A Treatonomics pode ser entendida como a evolução contemporânea do conhecido efeito batom, conceito que descreve como, em períodos de crise, consumidores substituem grandes gastos por indulgências menores, acessíveis e emocionalmente reconfortantes.

    O que muda agora é a escala cultural desse comportamento. Ele deixa de ser pontual e passa a estruturar decisões de consumo, estratégias de marca e narrativas digitais.

    Do efeito batom à lógica do pequeno prazer

    O efeito batom não é novidade no Brasil nem no mundo.

    Durante a Grande Depressão dos anos 1930, o batom se consolidou como símbolo de luxo acessível, fácil de justificar e capaz de oferecer conforto emocional.

    Décadas depois, o fenômeno voltou a ser observado em momentos de recessão, instabilidade política ou crises globais. Imagem: IWM/Getty Images (Imperial War Museums via Getty I)

    Décadas depois, o fenômeno voltou a ser observado em momentos de recessão, instabilidade política ou crises globais. Imagem: IWM/Getty Images (Imperial War Museums via Getty I)

    A Treatonomics amplia essa lógica.

    O pequeno prazer não precisa ser apenas um produto físico. Pode ser uma experiência, uma memória, um ritual cotidiano ou um objeto carregado de significado cultural.

    Durante a pandemia, isso ficou evidente no crescimento do consumo de cosméticos, itens de decoração, velas aromáticas, cafés especiais, assinaturas de streaming e pequenas indulgências gastronômicas.

    Era a compra de um respiro em meio ao sufoco.

    Nesse sentido, a Treatonomics não fala de frivolidade.

    Fala de sobrevivência emocional em um contexto onde a pressão é constante e o futuro parece cada vez mais imprevisível.

    Um mundo em estado de exaustão permanente

    O contexto atual potencializa o avanço da Treatonomics.

    Conflitos armados, instabilidade econômica global, polarização política, saturação da vida digital e a sensação crônica de esgotamento descrita por muitos estudiosos como a sociedade do cansaço criam um ambiente de tensão contínua.

    A hiperconectividade transformou o cotidiano em uma sequência infinita de estímulos, notificações e cobranças.

    A dopamina fácil das redes sociais convive com a ansiedade constante de comparação, desempenho e pertencimento.

    A dopamina fácil das redes sociais convive com a ansiedade constante de comparação, desempenho e pertencimento. Imagem: Reprodução/Canva

    Nesse cenário, pequenos escapes emocionais deixam de ser supérfluos e passam a ser necessários.

    A Treatonomics surge como resposta direta a esse ambiente. Ela explica por que um boneco colecionável, um ingresso para um show, um fone de ouvido novo ou um café especial podem ter um impacto emocional muito maior do que o valor financeiro envolvido.

    O papel da Geração Z e a cultura da narrativa

    A Geração Z ocupa um papel central na consolidação da Treatonomics.

    Crescida no fast scrolling, essa geração transformou cada aquisição em uma narrativa pública.

    Comprar deixou de ser apenas um ato privado e passou a ser conteúdo, identidade e expressão cultural.

    Itens como bonecos Labubu, por exemplo, reúnem todos os elementos que alimentam a Treatonomics: estética reconhecível, apelo emocional, escassez, lançamentos limitados, potencial de revenda e, sobretudo, uma boa história para contar.

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    O valor está tanto no objeto quanto na conversa que ele gera nas redes. Imagem: KUA CHEE SIONG

    A Treatonomics dialoga diretamente com essa lógica.

    O consumo passa a ser performativo, compartilhável e conectado a micro comunidades que validam escolhas e constroem pertencimento.

    Nostalgia, conforto e memória afetiva

    Outro pilar importante da Treatonomics é a nostalgia. Em tempos instáveis, o passado oferece uma sensação de segurança que o futuro não garante.

    No Brasil, redes de fast food entenderam bem esse movimento ao resgatar personagens que marcaram gerações em kits promocionais.

    O que antes era voltado apenas ao público infantil passou a atrair adultos que cresceram com essas referências.

    A experiência vai além do lanche. Ela ativa memórias afetivas, gera conforto emocional e transforma um consumo simples em um momento relevante.

     

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    A Treatonomics se alimenta exatamente disso. Pequenos luxos que aquecem o coração e ajudam a atravessar períodos de incerteza com mais leveza.

    Escassez, desejo e amplificação digital

    O motor da Treatonomics combina três fatores principais. Escassez, medo de ficar de fora e amplificação digital.

    Quando um produto raro encontra uma estética desejável e um terreno fértil em plataformas como TikTok e Instagram, ele se transforma rapidamente em fenômeno cultural.

    A lógica do drop, do tempo limitado e do estoque reduzido intensifica o desejo e acelera decisões de compra.

    A Treatonomics opera nesse território emocional, onde o racional perde espaço para o sentimento de oportunidade única. Imagem: Instagram/@gachagacha_miniature

    A Treatonomics opera nesse território emocional, onde o racional perde espaço para o sentimento de oportunidade única. Imagem: Instagram/@gachagacha_miniature

    Mesmo consumidores mais conscientes ou com orçamentos apertados se permitem essas pequenas indulgências porque o retorno emocional justifica o investimento.

    A economia das experiências e o novo valor do dinheiro

    A Treatonomics também ajuda a explicar por que experiências únicas continuam sendo priorizadas, mesmo em cenários econômicos adversos.

    Shows, festivais, eventos culturais e viagens pontuais ocupam um espaço simbólico importante na vida das pessoas.

    Muitos consumidores cortam gastos cotidianos, optam por marcas próprias no supermercado ou adiam compras maiores, mas não abrem mão de experiências que consideram memoráveis.

    O dinheiro deixa de ser apenas meio de aquisição e passa a ser ferramenta de construção de sentido.

    A Treatonomics revela uma mudança profunda na equação de valor.

    O consumidor não está sendo irresponsável. Ele está sendo humano, buscando equilíbrio emocional em um mundo percebido como caótico.

    Micro comunidades e relevância emocional

    A ascensão da Treatonomics acontece em paralelo ao fortalecimento das micro comunidades. Em vez de grandes audiências genéricas, as pessoas se refugiam em nichos de interesse onde a conexão é mais profunda e a confiança é construída com base em afinidade.

    Clubes de leitura, grupos de corrida, comunidades de fãs, fóruns de bem estar e espaços digitais de troca sincera se tornam ambientes decisivos para influenciar escolhas. A Treatonomics se manifesta nesses espaços como linguagem comum, como entendimento coletivo de que pequenos prazeres importam.

    Para as marcas, isso representa uma mudança estratégica. Relevância passa a valer mais do que alcance.

    O desafio e a oportunidade para as marcas

    Marcas que compreendem a Treatonomics não vendem apenas produtos. Elas vendem momentos, sensações e pertencimento. Elas entendem que a lealdade não está mais ligada apenas ao preço ou à frequência de compra, mas à capacidade de gerar alívio, conforto ou alegria.

    Participar dessa lógica exige autenticidade. Não se trata de interromper conversas, mas de fazer parte delas. Marcas que prosperam são aquelas que oferecem valor real dentro das micro comunidades, seja apoiando eventos locais, criando conteúdos úteis ou proporcionando experiências exclusivas.

    A Treatonomics não recompensa quem grita mais alto. Ela valoriza quem sabe ouvir, entender e entregar significado.

    Treatonomics como reflexo do nosso tempo

    Mais do que uma tendência de consumo, a Treatonomics é um retrato fiel do nosso tempo. Um período marcado por incertezas prolongadas, expectativas adiadas e redefinição de prioridades. Pequenos luxos funcionam como âncoras emocionais em meio ao caos.

    O que fica não é apenas o produto comprado, mas a sensação associada a ele. O momento criado. A memória construída. A Treatonomics mostra que, mesmo quando o futuro parece nebuloso, as pessoas continuam buscando motivos para se sentir bem no presente.

    E talvez seja exatamente isso que move o consumo hoje. Não a promessa de um amanhã distante, mas o alívio possível agora.

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